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segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A filosofia de Lipman

    
      Matthew Lipman (nascido em 24 de agosto de 1922, em Vineland, Nova Jersey , morreu em 26 de dezembro de 2010, em West Orange, New Jersey ) é reconhecido como o fundador da Filosofia para Crianças . Sua decisão de trazer a filosofia para os jovens veio de sua experiência como professor na Columbia University , onde ele testemunhou habilidades de raciocínio subdesenvolvidos em seus alunos. Seu interesse era particularmente no desenvolvimento de habilidades de raciocínio, ensinando lógica . A crença de que as crianças possuem a capacidade de pensar abstratamente desde tenra idade, levou-o à convicção de que trazer a lógica para a educação das crianças mais cedo iria ajudá-los a melhorar suas habilidades de raciocínio.
      Em 1972 ele deixou a Columbia para Montclair State College para criar o Instituto para o Avanço da Filosofia para Crianças (IAPC) , onde começou a levar a filosofia em K-12 salas de aula em Montclair. Naquele ano, ele também publicou seu primeiro livro especificamente concebido para ajudar as crianças a filosofia prática, descoberta de Harry Stottlemeier . O IAPC continua a desenvolver e publicar currículo , trabalhando internacionalmente para avançar e melhorar a filosofia para crianças.

Hamlet para crianças: um espetáculo completo

Peça de Shakespeare ganha humor de palhaço sem perder o peso de tragédia de vingança, graças ao talento e à ousadia da premiada Cia. Vagalum Tum Tum


Dib Carneiro Neto

  Divulgação
Um lençol branco surge da plateia, passando pelo alto das cabeças do público. O fantasma do pai de Hamlet ‘veste’ o lençol e diz, brechtinianamente, quando o filho lhe pergunta quem é ele: “Não vê que sou um lençol branco e, no teatro, todo lençol branco é um fantasma e todo fantasma é um lençol branco?” Mais tarde, o mesmo (ou outro?) pano vira o lago em que a personagem de Ofélia se atira, cometendo suicídio, depois de enlouquecer. A atriz tira a linda capa que caracteriza sua personagem e joga no lago de pano, numa linda cena sugerida, não explícita, muito menos naturalista. Demonstrando que captou totalmente o simbolismo e as metáforas da cena e contrariando a tese de que criança precisa de tudo muito bem explicadinho, um garoto na fileira à frente da minha diz para o amiguinho do lado: “Ela se matou, né?” 

São dois exemplos que revelam a experiência ímpar que é levar as crianças para ver a mais famosa “tragédia de vingança” (se é que se pode resumir a maior peça de Shakespeare a apenas este rótulo), Hamlet ou, como foi batizada nesta montagem, O Príncipe da Dinamarca. O diretor e adaptador, Ângelo Brandini, é o mesmo que já ofereceu ao público mirim suas visões muito sapecas de Othelo (Othelito) e de Rei Lear (O Bobo do Rei). Desafiando-se a apresentar o atormentado príncipe Hamlet à garotada, Brandini superou-se em criatividade, graça, escolha de linguagens e eficiência narrativa. 

É um espetáculo completo, para todas as idades, desses que vira um crime se você tenta demarcar uma faixa etária para o público. Para as crianças, é um mundo de descobertas, sem medo de temas tabus (assassinatos, suicídios, vinganças violentas). Para os jovens, há um frescor dark e um humor frenético. E para os adultos... bem, todo adulto precisa ir ver esta corajosa montagem destinada às crianças, em que tudo se passa dentro de um cemitério e todos os personagens são “esqueletinhos” ou “caveirinhas”, ou seja, todos estão mortos. O Príncipe da Dinamarca é, sem sombra de dúvida, um dos melhores espetáculos que São Paulo já viu neste já agonizante ano de 2011. 
  Divulgação
O espetáculo não faz concessões. Todas as mortes da tragédia original de Shakespeare estão lá. Todas as indagações retóricas do príncipe-filósofo também estão lá. O brilho de Brandini-adaptador está nisso. Não modificou a trama mais conhecida da literatura ocidental, em nome do que seria uma equivocada e castrante “proteção” aos pequeninos seres em formação, enfileirados na plateia. O que a pena do talentoso adaptador fez foi rechear sua encenação de cuidados criativos, ou seja, está tudo lá, mas envolto em graça, em picardia, em linguagem de histórias em quadrinhos, em truques de circo-teatro, em tropeções clownescos, em “doutores da alegria”, e assim por diante. 

Cada cena que poderia chocar ou espantar a garotada (como se isso ainda fosse possível diante de tudo o que veem na TV e na internet) usa um recurso diferente para lembrar a todos, o tempo todo, de que “isso é teatro”, ou seja, “isso é representação da vida”. Puro Brecht. Por exemplo, o fantasma do pai diz a certa altura: “Ah, tá bom, vou ter de repetir o velho truque de desaparecer!” Outro exemplo está no final, quando há aquele banho de sangue proposto por Shakespeare e os personagens principais vão morrendo um a um. Nesta montagem de Brandini, cada um que morre volta a “vestir” seu nariz de palhaço (que aqui é espertamente preto, e não vermelho) e faz uma reverência ao público, pedindo aplausos. Ou seja, nada é realista, não passa um minuto sem que Brandini lance mão de uma boa tirada ou um recurso de Brecht, para que as crianças embarquem no jogo teatral. Não há nada mais reverente a Shakespeare do que montar seu Hamlet, que afinal tem uma peça dentro da peça, com esse vigor cênico, essa ousadia dramatúrgica e essa renovação de linguagem. 

A conhecidíssima cena do solilóquio “ser ou não ser” é uma achado desta divertida montagem, já que os dois personagens-narradores são coveiros cujos nomes são Ser e Não Ser. Isso vira mote para um jogo de palavras muito bom e inteligente. Não bastasse, Brandini faz toda a cena ser feita com um bastão de circo (jogos malabares), em vez da tradicional caveira nas mãos de Hamlet. E muitos pontos de interrogação foram desenhados no bastão, dando um significado simbólico brincalhão ao objeto, remetendo a todas as dúvidas que acometem o pobre príncipe, que quer vingar a morte do pai, tramada pelo tio. 

A iluminação de Lígia Chaim é acertadíssima. Dialoga bem com o “clima” do cemitério e, por conseguinte, de todo o espetáculo. A canção dos coveiros é uma delícia e contagiante. A trilha de Fernando Escrich ainda brinca, na coroação do rei, com a sonoridade de uma conhecida música de baladas, cujo refrão é “Hey!”, que soa como se fosse a palavra rei. Sutilezas de uma montagem cuidadosa em todos os quesitos. 

No elenco, sempre afinado e homogêneo, com todos os talentos da Cia. Vagalum TumTum, desta vez tem brilho especial o hilariante “vilão” Cláudio, feito com maestria por Davi Taiú, forte candidato a prêmios neste ano. Anderson Spada é Hamlet, Christiane Galvan é Ofélia, Erickson Almeida é Laertes, Teresa Gontijo é Polônio e o coveiro Não Ser e Val Pires é o coveiro Ser. E todos, sem exceção, são caveirinhas... Não perca. Seus filhos vão aprender brincando que há mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia. E o resto é silêncio. 

SERVIÇO:
O Príncipe da DinamarcaTemporada: só até 27 de novembro, sábados e domingos, às 19h
Local: Teatro Alfa – Sala B. R. Bento Branco de Andrade Filho, 722 - Santo Amaro
Telefone: (11) 5693-4000. 
Duração: 55 minutos. 
Preços: crianças até 12 anos: R$ 12; Adultos: R$ 24

A EDUCAÇÃO É A SOLUÇÃO!